MUSEU DE CURIOSIDADES#14 – Um Cafezinho com a Monarquia: o café nas exposições do MN

Quem não gosta daquele cafezinho de manhã ou depois do almoço? Há quem goste com leite, sem açúcar, com canela,… Mas de onde surgiu essa bebida maravilhosa? E qual a relação que ela tem com o Museu Nacional?

O café é a segunda bebida mais consumida no mundo, atrás apenas da água. A história da origem do café mais aceita data de manuscritos do século VI que, mesmo sem evidência concreta,  falam da lenda de Kaldi.  Segundo a lenda, um pastor, há mais de mil anos, foi o primeiro a observar, na Absínia atualmente Etiópia, que as ovelhas ficavam mais alertas quando pastavam os frutos de café. Após comentar com um monge no monastério, esse decidiu experimentar os frutos em infusão, verificando que após a ingestão da bebida, conseguia orar por longas horas. Assim, o café foi cultivado, pela primeira vez, em monastérios islâmicos no Yemen.

O café tem uma enorme importância na maioria dos países do “cinturão do café’  (região compreendida entre os trópicos de capricórnio e câncer, onde o plantio do café é possível). O seu consumo foi bastante difundido por causa do seu efeito estimulante, que possibilita, dentre outras coisas, maior rendimento em atividades cotidianas. Mas, além disso, é preciso ressaltar o seu sabor, que é igualmente apreciado pelos seus consumidores.

 As primeiras mudas de café chegaram ao Brasil em 1727, trazidas clandestinamente da Guiana Francesa pelo militar luso-brasileiro Francisco de Melo Palheta, a fim de serem cultivadas na região Norte. A cultura se instalou inicialmente no Vale do Rio Paraíba, iniciando em 1825 um novo ciclo econômico no país. No final do século XVIII, embora em pequena escala, o Brasil passou a exportar o produto com regularidade. Os primeiros embarques para exportação do café foram conseguidos em 1779, com a discreta quantia de 79 arrobas, situação que mudou a partir de 1806 quando as exportações atingiram um volume expressivo de 80 mil arrobas. O café trouxe grandes contingentes de imigrantes, consolidou a ampliação da classe média, a diversificação de investimentos e até mesmo intensificou e patrocinou movimentos culturais internamente e no exterior.

Durante o século XIX, o Brasil se destacou como um dos maiores exportadores de café do mundo, tornando, portanto, o seu cultivo um dos principais pilares econômicos da Monarquia Brasileira.

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Pessoas escravizadas em lavoura de café no Vale do Paraíba no século XIX. fonte: http://www.cafehistoria.com.br/escravidao-fotografada

Devido a esta grande importância, o ramo de café é representado em brasões, moedas, esculturas, bandeiras, em diversos símbolos brasileiros e prédios históricos.

O edifício que hoje abriga o Museu Nacional/UFRJ foi, por mais de 70 anos, o palácio que serviu de residência da família imperial, de 1808 a 1889, ano em que foi proclamada a república, findando, assim, a Monarquia Brasileira. Este mesmo prédio, ao longo destes mais de 70 anos foi sendo ampliado justamente no período de apogeu da produção cafeeira. Será que há marcas deste período na arquitetura e decoração deste prédio?

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Fachada do Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista, bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro Fonte: https://ufrj.br/noticia/2015/12/22/museu-nacional-est-aberto-ao-p-blico-para-visita-o

Como já foi dito, o palácio, onde está o Museu Nacional, foi a residência da monarquia durante 70 anos, neste período o prédio foi ampliado e modificado algumas vezes. Em 1850, a ampliação no governo de D. Pedro II, destacou em diversos detalhes a imagem do café. Talvez pela visibilidade que esta marca teria aos visitantes do Paço de São Cristóvão, a fim de demonstrar a riqueza econômica do Brasil baseada no café, o que era notória, tanto internamente quanto externamente. Na fachada do prédio, é possível localizar representações desse grão. Nas portas do palácio, encontramos junto ao escrito PII  ramos de café e tabaco. Isso é justificável, pois nesse período a província do Rio de Janeiro se destacou na produção cafeeira do Brasil, responsável por 78,41% do café exportado que significava o principal produto do Império.

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À esquerda, foto dos portões de entrada do palácio do Museu Nacional, à  direita destaques para as representações dos ramos e grãos de café.

Além deste detalhe, é possível identificar, no segundo pavimento, próximo às “salas históricas”, alizares com  representações de café e tabaco. O tabaco, tal como o café, era muito importante para a economia do império. O aplique é composto por um metal trabalhado, que,  por ter sido pintado de branco, não consegue dar realce às diferentes figuras. Tanto o café quanto o tabaco foram os símbolos da realeza, representando o desenvolvimento do país através da agricultura brasileira.

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À esquerda, foto dos alizares próximos às “Salas históricas”. À direita, destaque para as representações vegetais dos ramos e grãos de café

O ramo de café foi muito simbólico para a monarquia e para a indústria, tanto que fez parte da bandeira imperial do Brasil. A bandeira do Brasil Imperial foi criada em 1822 pelo desenhista, pintor e professor francês Jean-Baptiste Debret. Vale lembrar que José Bonifácio de Andrada e Silva, também conhecido como “o Patriarca da Independência”, ajudou Debret na elaboração do projeto da bandeira do Brasil Império. A bandeira do Brasil Imperial possui formato retangular. Com fundo verde, havia no centro um losango amarelo-ouro. No centro do losango ficava o brasão nacional (imperial). Este brasão consistia num escudo verde, tendo ao centro a esfera armilar e a Cruz da Ordem de Cristo (em vermelho). Havia também um aro de fundo azul com 20 estrelas brancas (representando as províncias brasileiras). Sobre o escudo estava disposta a coroa imperial. Do lado esquerdo havia um ramo de café o do lado direito um de tabaco.

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À esquerda, foto da bandeira do Brasil Império presente na Sala do Trono, no Museu Nacional, À direita, ilustração da bandeira: http://ocampanhense.blogspot.com.br/2014/05/bandeira-imperial-do-brasil.html

Significados

Não se sabe com exatidão os significados dos elementos gráficos e cores da bandeira imperial brasileira. Porém, existem hipóteses e, as mais aceitas, são:

– Cor verde: simbolizava a Casa de Bragança, dinastia a qual fazia parte Dom Pedro I.

– Cor amarela: a explicação mais aceita é a de que esteja vinculado à cores da Casa de Habsburgo, da Imperatriz Leopoldina de origem austríaca.

– Ramos de café e tabaco: representava os dois principais produtos agrícolas do Brasil Imperial.

– Coroa: símbolo do regime monárquico.

– Cruz da Ordem de Cristo: valorização do cristianismo no Brasil e da religião católica como oficial.

O café foi, dessa forma, um dos principais esteios da sociedade brasileira do século XIX e início do XX. Garantiu o acúmulo de capitais para a urbanização de algumas localidades do Brasil, como Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. O consumo interno de café no Brasil, em 2017, foi estimado em 21,5 milhões de sacas, que correspondem a aproximadamente 1,07 milhão de toneladas. Com esse volume, o nosso País se destaca como o segundo maior consumidor de café a nível mundial, sendo precedido apenas pelos Estados Unidos, que consomem em torno de 25,8 milhões de sacas de café. Puro, pingado com leite, coado, filtrado, tirado de uma máquina de ‘espresso’, em cápsula, combinado com outros ingredientes, cappuccinos, com ou sem creme; não importa qual a receita ou forma de preparo, o fato é que o café está presente em 98% dos lares brasileiros. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Café – ABIC, o produto é consumido por 9 entre 10 brasileiros com mais de 15 anos. Atualmente, o Brasil é considerado o maior produtor e exportador de café do mundo, seguido do Vietnã e da Colômbia, e desde 2005, o Dia Nacional do Café é celebrado em 24 de maio no Brasil. E não tem como ser de outra forma, dentre seus muitos benefícios o café aumenta a concentração, reduz a fadiga e melhora a memória. Existem ainda evidências médicas que o café e  a cafeína contida nele ajuda na prevenção da diabetes, doenças cardiovasculares e mal de Parkinson. Café é o combustível do mundo moderno, então vá tomar uma caneca sem culpa e aproveitar todos os benefícios dessa deliciosa bebida!

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Imperador D. Pedro II apreciando o café brasileiro na sua xícara favorita (Ilustração de Manoel Magalhães)

Autores: Igor Rodrigues¹, Victor Lisboa² & Fernanda Fonte³

¹Auxiliar em Administração, Seção de Assistência ao Ensino – SAE, Museu Nacional

² Bolsista FAPERJ – SAE, Museu Nacional

³ Estudante de Pedagogia – UFRJ

Conheça outras ações da Seção de Assistência ao Ensino (SAE):

fb_icon_325x325 SAEMUSEUNACIONAL  unnamed @SAEMUSEUNACIONAL

Referência bibliográfica:

DANTAS, Regina. A Casa do Imperador: do Paço de São Cristóvão ao Museu Nacional. Rio de Janeiro, 2007. Dissertação (Mestrado em Memória Social). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em Memória Social, 2007.

OLIVEIRA, I. P. D.; OLIVEIRA, L. C.; MOURA, C. S. F. T. D. Cultura de Café: Histórico, Classificação Botânica e Fases de Crescimento. Revista Eletrônica Faculdade Montes Belos, Montes Belos, v. 5, n. 3, p. 18-32, 2012.

Associação Brasileira da Indústria do Café – ABIC  http://abic.com.br/eventos/dia-nacional-do-cafe/dia-nacional-do-cafe/

https://www.historiadobrasil.net/brasil_monarquia/bandeira_imperial.htm

https://www.graogourmet.com/blog/conheca-origem-do-cafe-e-sua-historia/

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