A SAE

Nova logo SAE _ 2016

Logomarca da SAE homenageia Edgard Roquette-Pinto, que a fundou no ano de 1927.

A Seção de Assistência ao Ensino – SAE, setor educativo do Museu Nacional – MN/UFRJ, de acordo com o Regimento da instituição corresponde a um ” órgão com a finalidade de atendimento ao ensino no âmbito das Ciências Naturais e Antropológicas, mediante assistência a um professor de ensino médio e elementar, a universitários, estudantes de qualquer nível, a escolas e ao público geral, mediante o uso de todas as suas exposições e instalações, bem como a de realizar pesquisas sobre técnicas de utilização didática das exposições para diferentes níveis de ensino”. Dentre as atribuições regimentais da SAE, estão:

  • Realizar estudos sobre estudos e pesquisas sobre educação em museus de ciências;
  • Prestar assistência ao ensino das ciências naturais e antropológicas a estabelecimentos de ensino, professores e alunos;
  • Orientar o público em visitas às exposições do Museu Nacional;
  • Organizar, realizar cursos, palestras, conferências e sessões cinematográficas educativas, para divulgação das Ciências Naturais e Antropológicas;
  • Organizar campanhas educativas, tendo em vista a proteção na Natureza e um melhor conhecimento dos recursos naturais, especialmente do país;
  • Organizar exposições próprias, temporárias ou volantes para atender aos seus objetivos educacionais;
  • Colaborar nas publicações do Museu Nacional e elaborar, para distribuição, obras de divulgação de conhecimentos de Ciências Naturais e Antropológicas.

HISTÓRIA

O Museu e o sonho: O projeto de Roquette Pinto e a criação da Seção de Assistência ao Ensino no Museu Nacional.

Quem quiser aprender num museu, deve primeiro preparar-se para a visita. Aquilo é apenas o atlas; o texto deve vir com o estudante” (Roquette Pinto apud Mendonça, 1946:54).

Um dos pioneiros da difusão e popularização das ciências naturais no Brasil, Roquette Pinto criou, em 1927, o primeiro setor educativo de museu do país – a 5ª. Seção: denominada Serviço de Assistência ao Ensino de História Natural. Seu trabalho era dedicado a atender escolas e diversos estabelecimentos de ensino primário e secundário para difundir o ensino de ciências. Esse artigo tem por finalidade traçar um histórico da Seção e de seu fundador, destacando o caráter primaz e inovador da intenção de Roquette Pinto ao criar a SAE, ressaltando a história desse sonho que se constrói e reconstrói até os dias de hoje no Museu Nacional.

Para este estudo utilizei como fontes de pesquisa a documentação existente na Seção de Memória e Arquivo do Museu Nacional/UFRJ (SEMEAR), tais como: Relatórios Anuais dos Diretores do Museu Nacional, além dos relatórios anuais dos diretores da Seção de Assistência ao Ensino e da Seção de Extensão Cultural, além de fotografias de Roquette Pinto, dentre outras. Além desses documentos, tive acesso a farta bibliografia sobre a História de Roquette Pinto e sobre a importância da SAE no Museu Nacional,  assim como busquei a leitura e estudo de teses, dissertações e publicações referentes a área da Educação em Museus.

Tempo de se sonhar: O cenário da educação em Museus à época da criação da Seção de Assistência ao Ensino.

Durante a primeira metade do século XX, os museus de ciência e tecnologia, tanto os existentes, em busca de renovação, quanto os que proliferaram em diferentes países, começaram a se dedicar a popularização de seus espaços e informações através da busca por métodos dinâmicos que permitissem ao público um maior acesso às coleções e informações.

Partindo de redes de comunicação estabelecidas, os conceitos e inovações circulavam cada vez mais rápido pelo circuito de museus. Catálogos começaram a classificar os próprios museus, a construir tipologias, a comparar os museus entre si, fomentando disputas por hegemonias científicas, sociais e políticas de caráter nacional e internacional (LOPES, 1994; COLEMAN, 1939 apud PEREIRA, 2010:135).

Atestada esta conjuntura favorável de trocas entre os museus e seus pesquisadores, se desenvolve paralelamente a discussão sobre a educação, que  deságua na discussão sobre a aproximação entre a  educação e os museus. A maneira vislumbrada para essa aproximação era a o incentivo a ação educativa no espaço do museu, atividade que no Museu Nacional se aprofunda com o regulamento de 1916, onde a função educativa foi assumida claramente: “O Museu Nacional tem por fim estudar, ensinar e divulgar a História Natural especificamente a do Brasil, cujos produtos deverá coligir, classificando-os cientificamente, conservando-os e expondo-os ao público com as necessárias indicações” (REGULAMENTO,1916, p.3)

Museu nacional década de 1930. Fonte: SEMEAR/Museu Nacional

Museu Nacional início do século XX. Fonte: SEMEAR/Museu Nacional.

A década de 1920 foi um dos períodos em que a divulgação científica parece ter sido incrementada no Brasil, em função de um conjunto de fatores relacionados à criação de organizações e instituições sociais, que desde a década anterior vinham crescendo em atuação no país. Algumas delas, como a Sociedade Brasileira de Ciências (1916), a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (1923), a Associação Brasileira de Educação (1924), voltaram-se para ampliação de publicações de livros, traduções, além da difusão de revistas e jornais (SILY, 2012).

O tema educacional foi também centro de intenso debate público nos anos 1920 e esteve presente entre os interesses de diferentes segmentos da sociedade. A educação, para uma parcela de intelectuais, da qual Roquette Pinto também fazia parte, era defendida como a forma mais acabada de promover a evolução dos indivíduos e, por conseguinte, o Progresso da nação. Tais questões passam a ser pautadas também por um crescente interesse governamental, principalmente no regime varguista, a partir de 1930.

O lugar de onde se sonha: Roquette Pinto e o Museu Nacional

Roquette Pinto

Foto de Roquette-Pinto entre os pequenos Kozarinis durante a expedição da Comissão Rondon no Mato Grosso em 1912.

Edgar Roquette Pinto (Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1884 – Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1954) foi médico legista, professor, antropólogo, etnólogo e ensaísta. No ano de 1906, Roquette realizou pesquisas sobre os sambaquis no Rio Grande do Sul e tornou-se assistente do dr. Henrique Batista, que se tornou seu sogro (Roquette se casou com a filha de Henrique, Riza). Trabalhando como médico legista no Rio de Janeiro, Roquette Pinto tornou-se professor de antropologia e etnografia do Museu Nacional.

No Museu, Roquette Pinto conhece o tenente-coronel Cândido Rondon (mais tarde Marechal), que    desde 1890 trabalhava pela criação e desenvolvimento de povoados no Amazonas e no Acre,  delimitando fronteiras, implantando e expandindo linhas telegráficas, além de entrar em contato com várias tribos indígenas. Em 1912, Roquette Pinto fez parte da Missão Rondon e passou várias semanas em contato com os índios nambiquaras, que até então não tinham contato com os “civilizados”. Nos dizeres de Ruy Castro, em Roquette Pinto: O Homem-multidão, a expedição foi “[…] uma saga de extraordinária importância para o conhecimento do Brasil – porque, pela primeira vez, Rondon viajava com um homem à sua altura. Roquette Pinto, sozinho, valia por uma equipe de cientistas”. (CASTRO, 2004, p.43)

A expressão de Ruy Castro se funda quando se observam relatos da época, nos quais se vê Roquette de folclorista a médico, atuando também como etnógrafo, sociólogo, geógrafo, arqueólogo, botânico, farmacêutico, legista, fotógrafo e cineasta. Realizou pesquisas biológicas e antropológicas dos índios das tribos pacificadas (não hostis), medindo seus crânios, comparando os tamanhos de seus indivíduos, além de estudar suas doenças e suas atividades sociais e econômicas.

Em 1927, com a saída de Arthur Neiva do cargo de diretor do Museu Nacional, é substituído por seu vice-diretor, Roquette Pinto, que tomou posse, em caráter definitivo, em 11 de outubro de 1927. Como diretor do Museu Nacional (1927-1935), preocupava-se em desenvolver estratégias e meios que possibilitassem a população o acesso ao desenvolvimento científico. Antes disso, nas direções de Bruno Lobo (1915-1923) e Arthur Neiva (1923-1927), notamos já uma preocupação, cada vez mais constante, com a orientação educativa da instituição. Instaurado esse antigo anseio em prol da educação em museus, foi criada a Seção de Assistência ao Ensino (SAE), primeiro setor educativo de um museu brasileiro.

Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu: Desenvolvimento e trajetória institucional da SAE

A SAE foi criada com a finalidade de cuidar das coleções didáticas de História Natural e, na concepção de seu fundador, ela intermediaria as demais seções e suas produções científicas direcionadas ao atendimento do público (RANGEL, 2010).

O Globo, 1927.

O Globo, 1927.

Para tal empreitada foi criada uma Coleção Didática de Empréstimo, foram produzidos filmes educativos, difundiram-se cursos de especialização para professores, a Seção contava com uma sala de projeções (Sala de Cursos) na qual promovia o atendimento direto à escolas e fornecia a professores material como diapositivos, gravuras em cores, filmes e etc. (PEREIRA, 2010, p.172). Naquele momento, eram utilizados pela SAE os mais modernos e eficientes processos de ensino e os métodos considerados os mais aconselhados para o ensino da natureza, como pintura, modelagem, projeção fixa e cinematográfica, mapas murais, dentre outros. Visando ampliar ainda mais sua capacidade de atuação, a SAE chegou a realizar atividades de microscopia, com preparação de lâminas sobre a fauna e flora de água doce dos arredores do Rio de Janeiro (Ibid, p.175).

Sala de preparação, montagens e determinações do Serviço de Assistência ao Ensino da História Natural. Fonte: Relatório anual da 5ª seção de 1929 . (SEMEAR/MN)

Sala de preparação, montagens e determinações do Serviço de Assistência ao Ensino da História Natural. Fonte: Relatório anual da 5ª seção de 1929.Fonte: SEMEAR/Museu Nacional.

Dois anos depois da criação da SAE, é possível ter notícias do resultado do empreendimento de Roquette Pinto através do jornal “O Paiz” de 9 de novembro de 1929 numa publicação onde afirma que:

“(…) O Museu Nacional é um dos estabelecimentos que honram a administração pública, pelo anceio de corresponder á sua finalidade. Ainda a pouco foi ali creada uma secção de assistência ao Ensino da história natural, feliz e louvável iniciativa do actual director, Dr. Roquette-Pinto, secção que se vem desenvolvendo rapidamente, graças, também, ao acolhimento que tem merecido de professores officiaes e particulares.

A secção, onde trabalham technicos da mais alta competência, destacando-se, entre outros, o Dr. Paulo Schirch, já dispõe de variados e innumeros especimens ds diversos ramos das sciencias naturaes, mesmo da sua parte aplicada, além de grande variedade de films, especialmente da flora e fauna do Brasil.

[…]Começa-se, assim, entre nós, uma reação salutar contar os methodos de estudo da historia natural, que deixará de ser um assumpto arido, de decorar systemas e nomes, para tornar-se o estudo curioso da vida, aprofundando-se na verdadeira biologia.”

A SAE era uma tentativa de transformar a instituição num museu pedagógico-educativo, numa “universidade do povo”, segundo as próprias palavras de Roquette Pinto. Para isto, lá instalou, inclusive, um auditório especial e incentivou escolas a frequentar o local. Em 1929, então como diretor do Museu Nacional, cargo assumido em 1927 e no qual permaneceu até 1936, anuncia a reformulação completa das salas expositivas da instituição (SANTOS, 2011). A gestão de Roquette contou com o artifício do rádio e de uma revista especializada (Revista Nacional de Educação, editada pelo Museu de 1932 a 1934), preconizando a difusão da ciência e instrução pública em longo alcance.

Com contribuições coletadas nos EUA, feitas por Bertha Lutz que estudara as “técnicas de preparo e a organização de mostruários de Museus de História Natural, métodos de divulgação da História Natural, bem como a organização de Hortos Botânicos, além de visitar ‘com grande interesse’ os Museus para crianças em Brooklyn e Boston” 16 (LOPES, 2006a: 214). Ao findar do ano de 1931, vestígios de sua contribuição nesse sentido aparecem nos ofícios do já diretor Roquette Pinto, em que este remete à 5ª. Seção “uma série de jogos educativos” que teriam sido oferecidos por ela ao Museu (MN. Of.556.23/dez./1931).

O Museu Nacional foi, ainda, “pioneiro também no campo das atividades educacionais, [que] lançou as bases para o estreitamento das relações museu-escola no Brasil” (LOPES,1988, p.33). Colaborando até no aperfeiçoamento dos docentes – prática retomada na gestão atual da SAE – quando em 1934, é oferecido aos professores da prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, um curso de aperfeiçoamento em História Natural, contendo 99 aulas entre práticas e teóricas.

Em 1941, pelo decreto lei n° 2.974, de 23 de janeiro de 1941, o Museu Nacional foi organizado em órgãos, passando a 5ª seção à denominação de Seção de Extensão Cultural (S.E.C). Em 1946, quando o Museu foi incorporado à Universidade do Brasil como instituição nacional, integrando o Fórum, de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) voltou à denominação de Seção de Assistência ao Ensino, até hoje mantida de acordo com o último regimento, de 1971.

Edgard Roquette Pinto faleceu, aos 70 anos de idade, no dia 18 de outubro de 1954, no Rio de Janeiro, ainda trabalhando ativamente. A morte o surpreendeu batendo em sua máquina de escrever um artigo que não chegou a concluir: “Aquele que conhece, aquele que cria, aquele que ama…” Deixou pronto para ser publicado um volume de poesias que sua filha, Maria Beatriz Roquette Bojunga, não deseja publicar (TAVARES, 1999).

O sonhador morreu, porém o sonho não, o sonho cresceu. Atualmente, a SAE tem como principais atribuições elaborar e implementar projetos educativos e culturais voltados para o público escolar (professores e alunos), universitários e para o público geral; agendar visitas escolares, formar mediadores para atuar nas ações educativas do Museu e emprestar material didático. Se nos primórdios da SAE o foco estava na criação de museus escolares, hoje ele se concentra, dentre outras coisas, em potencializar o acesso e o uso da sua Coleção Didática para Empréstimo, haja vista que hoje as escolas estão legalmente proibidas de ter esse tipo de acervo. Portanto, é inspirada nos desejos e sonhos de Roquette Pinto e tantos outros profissionais que deixaram sua marca nessa Seção, que  há mais de oitenta anos continua trabalhando na tentativa constante de reafirmar seu papel de destaque no Museu Nacional em prol da educação e da promoção da popularização do conhecimento científico no Rio de Janeiro, adequando-se às demandas educacionais do presente, e revitalizando assim o sonho de Roquette Pinto.

Henrique Dias Sobral Silva  – Graduando em História (UFRJ), Bolsista PIBEX-Museu Nacional (UFRJ).

Bibliografia:

CASTRO, Ruy. Roquette-Pinto: o homem multidão. Rio de Janeiro, 2004. Disponível em: <http://www.radiomec.com.br/roquettepinto&gt;. Acesso em: 20 de março de 2013.

COLEMAN, L.V. The museum in America: a critical study. Washington D.C., The American Association of Museums. V.3 1939.

HOFBAUER, Andreas. Roquette-Pinto: uma vida dedicada ao progresso da nação. Estud. hist. (Rio J.) [online]. 2009, vol.22, n.44, pp. 562-568. ISSN 0103-2186.

LOPES, Maria Margaret. Aspectos da história dos museus. (Dissertação de mestrado) – Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1988.

________________. “’Vencer barreiras’, até quando? Aspectos da trajetória científico-política de Bertha Maria Julia Lutz (1894-1976)” In. SANTOS, L.W.; ICHIKAWA, E.Y.;CARGANO, D. F.(orgs.) Ciência, Tecnologia e Gênero: Desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: IAPAR, 2006a.

PEREIRA, Marcele Regina Nogueira. Entre Dimensões e funções educativas: A trajetória da 5ª Seção de Assistência ao Ensino de História Natural do Museu Nacional. Dissertação (Mestrado em Museologia e Patrimônio) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/Museu de Astronomia e Ciências Afins/Programa de Pós-graduação em Museologia e Patrimônio, Rio de Janeiro, 2010.

RANGEL, Jorge Antonio. Edgard Roquette Pinto. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.

SILY, Paulo Rogério Marques. Casa da ciência, casa da educação: Ações ducativas do Museu Nacional (1818-1835). Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.

TAVARES, Reynaldo C. Histórias que o rádio não contou. 2. ed. São Paulo: Harbra, 1999.

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Cartaz de Divulgação do Museu Nacional no início do século XX

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Decreto de criação do Museu Nacional em 1818, assinado por D. João VI.

 

 

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Sentadas, da esquerda para a direita: Princesa Leopoldina, Princesa Isabel e uma menina não identificada. Foto tirada, provavelmente, no interior do Palácio de São Cristovão (atual Museu Nacional), Biblioteca Nacional.

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Sentadas, da esquerda para a direita: Princesa Leopoldina, Princesa Isabel e uma menina não identificada. Foto tirada, provavelmente, no interior do Palácio de São Cristovão (atual Museu Nacional), Biblioteca Nacional.

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centenario do mn

assinatura e roquete pinto

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