QUE BICHO QUE DEU!? #8 – “Palpos” de Aranha

Nessa sexta-feira 13, trazemos a 8º postagem da coluna “Que bicho que deu?”

ARACNÍDEOS: letais ou incompreendidos?

Imagine que você acabou de chegar em casa, senta no sofá, e de repente percebe alguma coisa subindo pela parede. Você se aproxima com curiosidade para descobrir o que será aquilo, e percebe que é uma aranha! Que medo, não? Mas calma, antes de tudo vamos ter certeza que é uma aranha mesmo.

Os aracnídeos são um grupo muito diverso, com mais de 100 mil espécies conhecidas. São bem diferentes dos insetos, apesar de serem frequentemente confundidos com os mesmos. Podemos diferenciar os aracnídeos por terem o corpo dividido em dois segmentos (enquanto os insetos possuem três), possuírem quatro pares de patas (três pares em insetos), um par de quelíceras (peças para alimentação), um par de pedipalpos e não possuírem antenas e asas (Figura 1).

Aracnídeo não é inseto!

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Figura 1. Principais diferenças entre um inseto e um aracnídeo típico (aranha).

Entre os aracnídeos mais famosos, estão as aranhas e os escorpiões (aparecendo em vários filmes, videogames, livros, pinturas…), mas existem outros 9 grupos de aracnídeos menos conhecidos com os quais você provavelmente nunca cruzou: Acari (ácaro, carrapato), Amblypygi (aranha-chicote), Opiliones (opilião, aranha-fedorenta), Palpigradi, Pseudoscorpiones (pseudo-escorpião, falso-escorpião), Ricinulei, Schizomida, Solifugae (aranha-camelo) e Thelyphonida (escorpião-vinagre) (Figura 2).

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Figura 2. Alguns aracnídeos que talvez você nunca tenha visto. A) Opiliones (opilião), B) Solifugae (aranha-camelo), C) Ricinulei, D) Thelyphonida (escorpião-vinagre), E) Pseudoscorpiones (falso-escorpião), F) Schizomida.

As aranhas estão dentre os animais que mais causam repulsa e medo nas pessoas, sendo vistas, injustamente, como animais muito perigosos. Porém, das mais de 40 mil espécies de aranhas que existem no mundo inteiro, menos de 1% representa risco para a saúde humana. A probabilidade de uma pessoa morrer por ter sido picada por uma delas é muito baixa!

Além de possuir as características dos aracnídeos, as aranhas também apresentam glândulas de veneno nas quelíceras e de seda nas fiandeiras (presentes na parte de baixo do abdômen). A seda é essencial na vida das aranhas, sendo utilizada de diversas formas: construção de teia para captura do alimento (embora nem todas as aranhas façam teia), construção de tocas, fio de segurança ao caminhar e saltar, envoltório dos insetos capturados e proteção dos ovos. Elas são predadoras e, apesar de terem como prato principal os insetos, também podem se alimentar de peixes, aves, pequenos mamíferos, e até mesmo complementar a sua dieta com néctar de plantas (Figura 3).

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Figura 3. Aranhas com diferentes hábitos alimentares: A) predando um mosquito, B) predando um peixe, C) sugando néctar de uma planta, D) predando uma lacraia.

Aracnídeos de importância médica no Brasil

Das mais de 100 mil espécies de aracnídeos conhecidas, menos de 1% pode chegar a causar a morte em seres humanos. No Brasil as espécies de maior importância médica e que causam mais acidentes são:

  • Aranha-armadeira (Phoneutria spp.) recebe esse nome por causa de sua posição de ataque com as patas dianteiras levantadas (Figuras 4 A e B). Esses animais podem chegar aos 15 cm de comprimento e são agressivas somente se perturbadas. Do total de acidentes reportados, apenas 2% precisaram da utilização de antiveneno, sendo raríssima a morte de seres humanos.
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Figura 4. Aranha-armadeira (Phoneuria spp.).

  • Viúva-negra (Latrodectus spp.), uma aranha pequena, com cerca de 1 cm (Figura 5). Apresenta o abdômen arredondado e colorido (preto, marrom e, geralmente, com desenhos na cor vermelha).
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Figura 5. Aranha viúva-negra (Latrodectus spp.).

  • Aranha-marrom (Loxosceles spp.), é uma aranha muito pequena, não passa de 4 cm de envergadura (Figura 6). Apresentam hábitos noturnos, vivem em ambientes escuros e secos, onde tecem teias irregulares, muito parecidas com fiapos de algodão, nas quais capturam seu alimento.
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Figura 6. Aranha-marrom (Loxosceles spp.).

  • Escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) presente principalmente no estado de Minas Gerais, apresenta o tronco escuro, patas, pedipalpos e cauda amarela com espinhos.
  • O escorpião-marrom (Tityus bahiensis) é chamado assim por apresentar coloração marrom-escura, às vezes marrom-avermelhada. Caracteriza-se por possuir pernas amarelas com manchas escuras e ausência de espinhos na cauda, o que permite diferenciá-lo do escorpião-amarelo. Mais comum em São Paulo (Figura 7).
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Figura 7. Escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) à esquerda e escorpião-marrom (Tityus bahiensis) à direita.

Mas as aranhas não são apenas nocivas. Por serem predadoras, alimentam-se, principalmente, de baratas, grilos e outros insetos. Com isso, controlam a população desses seres, impedindo que a sua proliferação prejudique o meio ambiente. Segundo dados publicados na revista The Science of Nature, todas as aranhas do mundo comem por ano um total de 400 milhões a 800 milhões de toneladas de insetos e pequenos animais. Portanto, por mais que seja cheia de pernas, peluda ou assustadora, a próxima aranha que você encontrar pela frente merece mais respeito.

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VOCÊ SABIA?

Você sabia que alguns escorpiões emitem um brilho fluorescente ao ficarem expostos à luz ultravioleta?

Pois é, esta característica dos escorpiões de emitir brilho fluorescente sob luz UV é um tema ainda em debate entre os pesquisadores. Entretanto, diversos estudos indicam que a presença desta característica está associada à percepção que o escorpião tem do ambiente a sua volta. Desta forma, o escorpião consegue “perceber” quando está desprotegido e assim procurar abrigo debaixo de troncos e pedras para evitar potenciais predadores. (Figura 8).

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Figura 8. Escorpião à esquerda iluminado com luz branca normal e à direita sob luz ultravioleta emitindo fluorescência.

Você sabia que existem espécies de escorpiões que não precisam de macho para se reproduzirem?

É isso mesmo, várias espécies do gênero Tityus possuem uma característica chamada partenogênese, onde ovos não fecundados podem formar um novo indivíduo.

Você sabia que os aracnídeos estão presentes em diversos filmes?

Os aracnídeos têm estado presentes em diversas representações culturais ao redor do mundo (não é à toa que existe uma constelação chamada escorpião). Geralmente são representados com conotação repulsiva e perigosa, mas também como representação de maternidade ou ressaltando suas habilidades na arte de tecer (veja por exemplo Arachne na mitologia grega). Na atualidade são amplamente usadas na sétima arte, os exemplos mais notáveis são “Homem-Aranha”, “A Múmia: o Retorno”, “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, os filmes da saga “Senhor dos Anéis” ou o clássico da sessão da tarde: “Aracnofobia” (Figura 9).

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Figura 9. Aracnídeos presentes em filmes. A) Amblypygi (aranha-chicote) no filme “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, B) aranha no filme “O Hobbit: a Desolação de Smaug”, C) o ser metade homem e metade escorpião no filme “O Retorno da Múmia”, D) aranha no filme “Homem-Aranha”, E) aranha no filme “Aracnofobia”.

Você sabia que as aranhas existem há muito mais tempo que os seres humanos?

Pode parecer estranho, mas os invertebrados como as aranhas, escorpiões e outros aracnídeos também deixaram registrada sua passagem na forma de fósseis. O número de registros de fósseis de aracnídeos é grande. Os mais antigos escorpiões conhecidos viveram no período Siluriano cerca de 430 milhões de anos atrás!

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Figura 10. Fóssil de aranha encontrado na Formação Crato, chapada do Araripe.

A Formação Crato é uma das fontes mais abundantes de fósseis de aranhas que viveram na era Mesozoica. Embora existam poucas espécies descritas, já foram coletados na Chapada do Araripe centenas de fósseis de indivíduos machos, fêmeas e jovens. Entre esses, destacam-se grandes exemplares de diplurídeos (tarântulas) que construíam teias especializadas na captura de insetos saltadores, como grilos e gafanhotos, os mais abundantes da Formação Crato. 

Você sabia que pode conhecer muito mais sobre esses animais no Museu Nacional?

O Museu Nacional abriga exposições sobre os mais diversos assuntos e temas, Antropologia, Arqueologia, Meteorítica, Egiptologia e muitos outros. Na exposição de longa duração intitulada “Conchas Corais e Borboletas“, inaugurada em outubro de 2013, estão expostos cerca de 2 milhões de itens originais, onde podemos encontrar uma grande coleção de invertebrados,  insetos e aracnídeos! Venha conferir!

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Figura 11. Vitrine sobre os aracnídeos, na exposição “Conchas, Corais e Borboletas”

Incrível, não é mesmo?

Deixe seu comentário, pergunta, sugestão ou opinião sobre esse grupo tão interessante e incompreendido dos Aracnídeos.

 

Aproveite e conheça Lucas, a aranha mais fofa do youtube:

 

Referências

BRAZIL, T. K., PORTO, T.J. (2001) Os escorpiões. Salvador: Edufba, 84 pág.

BRUSCA, R. & BRUSCA, G.J. (2007)Invertebrados. 2ª ed. Editora Guanabara Koogan S.A., Rio de Janeiro, 968 pág.

FOELIX, R.F. (2011) Biology of spiders. Oxford University Press, 428 pág.

GONZAGA, M. O. (Org.), SANTOS, A. J. (Org.) & JAPYASSU, H. F. (Org.). (2007)Ecologia e Comportamento de Aranhas. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 400 pág.

MOTTA, P. C. (2014)Aracnídeos do Cerrado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Technical Books, v. 1. 209 pag.

 

Autores: Ludson Neves de Ázara¹, Miguel Angel Medrano¹, Carla Martinho de Lima Barros² & Igor Rodrigues³

¹Doutorando no programa de pós-graduação em Zoologia do Museu Nacional, Laboratório de Aracnologia, Departamento de Invertebrados, Museu Nacional.

²Técnica de Laboratório/Assistente de Curadoria, Laboratório de Aracnologia, Departamento de Invertebrados, Museu Nacional.
Página no Facebook: Laboratório de Aracnologia do Museu Nacional

³Auxiliar em Administração, Seção de Assistência ao Ensino – SAE, Museu Nacional

 

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