RELATIVIZANDO: 90 ANOS DA VISITA DE EINSTEIN AO BRASIL

RELATIVIZANDO: 90 ANOS DA VISITA DE EINSTEIN AO BRASIL

einstein_roquette_sem escada (1)

Muitos já devem ter ouvido falar sobre o grande cientista Albert Einstein e sua imensa contribuição para a ciência. Contudo, o que pouca gente sabe é que ele já esteve no Rio de Janeiro e que o Brasil foi crucial para a comprovação da sua Teoria Geral da Relatividade e, por consequência, para sua fama mundial. Neste texto vamos abordar alguns aspectos da sua visita ao nosso país, sua chegada, impressões, objetivos e contribuições. Abordaremos também a sua passagem pelo Museu Nacional (MN) -um dos maiores polos acadêmicos de pesquisa do país -visto que no dia 7 de maio de 2015 comemoramos 90 anos desde essa ilustre visita.

Para entendermos essa passagem pelo Brasil, precisamos de uma breve contextualização.

Um pouco sobre Albert Einstein e de sua trajetória

Acredita-se que Einstein tenha descoberto sua paixão pela matemática aos 12 anos, quando ganhou de seu tutor, Max Talmud, o Holy Geometry Book (Livro Sagrado da Geometria, em tradução livre). Porém, há ainda quem acredite que a paixão pelo magnetismo é ainda mais antiga. Com apenas cinco anos de idade, o pequeno Albert viu uma bússola que pertencia ao pai e ficou maravilhado com aquele objeto que sempre apontava para o norte. De qualquer forma, não parece haver dúvidas de que o interesse pela física e pela matemática estiveram sempre presentes em sua vida.

No ano de 1900, quatro anos após a sua entrada na faculdade, Albert Einstein se graduou em Física pela Universidade Federal Politécnica de Zurique, na Suíça. Nos cinco anos seguintes, Einstein publicou quatro artigos científicos e, em 1905, aos 26 anos, ele propõe a Teoria da Relatividade Restrita. Ou seja, agora em 2015, além de completarmos 90 anos de sua visita ao Brasil, comemoramos os 110 anos da publicação do maior trabalho de Einstein.

Mesmo tendo sido publicada em 1905, a Teoria da Relatividade Restrita só foi considerada completa matematicamente dez anos depois, com a publicação da Teoria da Relatividade Geral. Mais além, sua comprovação só se deu em 1919 e é aqui que o nosso país entra nessa história.

A teoria está diretamente ligada ao comportamento da luz quando passa próximo a corpos de grande massa. Einstein disse, por exemplo, que quando a luz passa próximo a um corpo muito grande (como por exemplo o Sol) a luz tende a se curvar. Difícil de acreditar? No link abaixo temos um vídeo de apenas noventa segundos, mas que nos ajuda a ilustrar muito bem esse fenômeno.

Com seus experimentos e observações, o físico comprovou que o espaço e o tempo, até então abordados como imutáveis e absolutos, podem sim sofrer alterações.

“Para um corpo parado, o tempo corre com velocidade máxima. Mas quando o corpo começa a se movimentar e ganha velocidade na dimensão do espaço, a velocidade do tempo diminui para ele, passando mais devagar. A 180 km/h, 30 segundos passam em 29,99999999999952 segundos. A 1,08 bilhão de km/h (a velocidade da luz), o tempo simplesmente não passa.” (Mundo Estranho, sd.)

Einstein precisou de diversos experimentos para tornar suas conclusões aceitas cientificamente e uma parte primordial dessas conclusões saíram do Brasil. Como assim? Já explico.

O Brasil e a comprovação da Teoria da Relatividade

“A pergunta que minha mente formulou foi respondida pelo ensolarado céu do Brasil” (Albert Einstein)

desvio da luz

Desvio da luz ao passar próxima ao Sol, com a posição real e aparente da estrela de origem. Disponível em: <http://astro.if.ufrgs.br/univ/#einstein&gt;

Em 1919, na cidade de Sobral, no Ceará, diversos físicos e astrônomos se reuniram para observar um fenômeno natural. Estadunidenses, ingleses, brasileiros, alemães e argentinos se juntaram para fotografar o eclipse solar. Simultaneamente, cientistas também se reuniram em São Tomé e Príncipe, na África, para conseguir um outro ângulo do eclipse e também fotografá-lo. O objetivo deles era poder observar as estrelas durante o dia e como sua posição “variava” entre a “posição real” e a “posição aparente” de acordo com o local de onde eram observadas.

Com isso, eles perceberam que quanto mais próximas do Sol, maior era o desvio da luz das outras estrelas, que era exatamente o que a Teoria Geral da Relatividade queria explicar.

Fotografia do eclipse de 1919, obtida na cidade de Sobral no Ceará. As linhas verdes marcam as posições das estrelas usadas para a verificação da Teoria da Relatividade Geral.

Fotografia do eclipse de 1919, obtida na cidade de Sobral no Ceará. As linhas verdes marcam as posições das estrelas usadas para a verificação da Teoria da Relatividade Geral.

1925: o ano da visita de Albert Einstein ao Brasil

Einstein acabou por visitar o Brasil em 1925, a pedido da comunidade judaica do país. Por ser judeu, ele aproveitou que faria uma viagem a Argentina e ao Uruguai e aceitou o convite para vir ao Brasil.

Os objetivos do “pai da Relatividade” eram mais profundos do que apenas uma visita recreativa. Ele tentava unir novamente a comunidade científica mundial, que tinha sofrido um grande afastamento por causa da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Einstein tentava também trazer mais incentivos para a ciência em países economicamente mais fracos, que era o caso do Brasil, além de trazer à tona a importância do “Fazer Científico”.

Sua passagem pelo Brasil deu-se em dois momentos, em março e em maio de 1925. No dia 21 de Março, Einstein desembarcou no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, e foi recebido por jornalistas, cientistas e membro da comunidade judaica. Neste dia, ele visitou apenas o Jardim Botânico e andou a pé pelo centro da cidade. Nesta oportunidade, embarcou para o destino seguinte no mesmo dia.

Após um ciclo de palestras entre Uruguai e Argentina, no dia 4 de Maio o cientista desembarcou novamente no Rio, desta vez para permanecer por 8 dias. Entre os dias 4 e 12 de Maio, o físico proferiu palestras e visitou diversos pontos turísticos. Para ele, acostumado com o clima ameno da Europa, o Brasil era “quente e úmido demais para se efetuar qualquer trabalho intelectual”.

No dia 6 de maio, realizou uma palestra sobre a Relatividade Geral no Clube de Engenharia, cujo Auditório ficou superlotado. No dia 8, outra palestra foi realizada, agora na Escola Politécnica. Nesta ocasião, os organizadores limitaram o número de ouvintes para evitar a confusão e tumulto ocorridos dois dias antes.

Ainda no dia 6, Albert visitou o presidente da República, Arthur Bernardes e sua conversa foi relacionada a importância dos centros de ciências e da necessidade de incentivo a essas áreas.

Einstein visita o Museu Nacional

Foi no dia seguinte, 7 de maio de 1925, que Einstein visitou o Museu Nacional, reconhecido como importante centro científico em um país onde, até então, pouca importância se dava à ciência.

Na ocasião foi recebido por Edgard Roquette-Pinto, que substituía Artur Neiva, Diretor do Museu, que estava em São Paulo.

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Em pé, ao fundo, da esquerda para direita: 1) Raimundo Lopes da Cunha, antropólogo do Museu Nacional (MN); 2) Eduardo May, do MN; 3) Não identificado; 4) A. Getúlio Neves (?), do Clube de Engenharia; 5) Alberto José de Sampaio, Botânico do MN; 6) Jùlio César Diogo, Botânico do MN; 7) Inácio Azevedo do Amaral, da Escola Naval; 8) Henrique Morize, da Escola Politécnica. Na frente, da esquerda para a direita: 9) Alberto Childe, arqueólogo do MN; 10) Edgard Roquette-Pinto, Diretor do MN; 11) Albert Einstein; 12) Alípio de Miranda Ribeiro, zoólogo do MN; 13) Alberto Betim Paes Leme, geólogo do MN; e 14) Isidoro Kohn, do Clube de Engenharia.

Além de encantar-se pelo jardim logo à frente do Museu, Einstein interessou-se principalmente pelas exposições de geologia e antropologia. A cultura indígena ganhou um registro em seu diário, onde ele fazia referências à tendência dos indígenas se extinguirem em um processo natural de miscigenação. Isso porque, segundo naturalistas e antropólogos da época –como o próprio Roquette-Pinto- os mulatos e indígenas eram menos resistentes a doenças.

Einstein também interessou-se pela história do Meteorito do Bendegó, um meteorito de aproximadamente cinco toneladas composto, principalmente, de ferro (95,1%) e Níquel (3,9%) e que está em exposição no Museu Nacional desde 1888, ao lado do qual o físico foi retratado como podemos ver na fotografia abaixo.

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Einstein durante sua visita ao Museu Nacional, ao lado do Meteorito de Bendegó.

pau brasil

Pau-Brasil encontrado no Jardim das Princesas, possivelmente aquele plantado por Einstein em visita realizada ao Museu Nacional no ano de 1925.

Outra parte do Museu que Einstein visitou foi o Jardim das Princesas. Durante o Brasil Império, o jardim serviu como local de recreação para das filhas de D. Pedro II e Teresa Cristina, as princesas Isabel e Leopoldina. Aberto à visitação, em 1925, Einstein plantou um broto de Pau-Brasil no referido Jardim. Hoje ainda pode ser visto no mesmo local um Pau-Brasil, indicando que possivelmente se trata da árvore plantada por Einstein naquela ocasião. O Jardim das Princesas se encontra atualmente fechado a visitação pública para restauração.

Durante sua estadia no Brasil, ele visitou também a Fundação Oswaldo Cruz e o Observatório Nacional, como o bom turista que era. Como cientista, visitou a Academia Brasileira de Ciências, na qual fez em francês um pronunciamento sobre sua teoria.

“Einstein deixou o Rio, com destino à Europa, no dia 12 de maio. Sua visita, amplamente noticiada pela imprensa, influenciou e deu novo alento à pequena e emergente elite acadêmica do Rio de Janeiro em sua luta pelo estabelecimento da pesquisa ‘pura’, como era designada a pesquisa básica, e para a difusão das ideias da física moderna no Brasil.

Quando deixou o Rio, o físico alemão enviou, do navio, uma carta ao Comitê Nobel, sugerindo o nome do marechal Cândido Rondon para o prêmio Nobel da paz. Embora não tivesse encontrado Rondon pessoalmente, Einstein ficou muito impressionado com o que ouviu sobre suas atividades “na integração das tribos indígenas ao homem civilizado, sem o uso de armas nem de qualquer tipo de coerção.” (Ciência Hoje, 1995)

   Referências

 MOREIRA, Ildeu de C.; TOLMASQUIM, Alfredo T. Um manuscrito de Einstein encontrado no Brasil, Ciência Hoje, vol. 21, n. 124, 22-29, (1996).

MOURÃO, Ronaldo. Einstein visita o Museu Nacional. [online] Disponível em: < http://www.parana-online.com.br/canal/tecnologia/news/126599/?noticia=EINSTEIN+VISITA+O+MUSEU+NACIONAL&gt;. 2015.

Folha Online. Depois do Nobel, Einstein veio ao Brasil para série de palestras. Folha de São Paulo, São Paulo, Jun. 2005. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13269.shtml&gt;. Acesso em: 03 jun. 2015.

Revista Mundo Estranho. O que é a Teoria da Relatividade? Disponível em: <http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-e-a-teoria-da-relatividade&gt;. Acesso em: 27 abr. 2015.

 Escrito por: Diego Madeira (Graduando em Ciências Biológicas – UFRJ e Bolsista PRODICC na Seção de Assistência ao Ensino do Museu Nacional)

Revisão: Profa. Dra. Cecília Maria Pinto do Nascimento – Docente do Curso de Licenciatura em Física da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul – UEMS

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