3X ZUMBI: MEMÓRIA GUERREIRA QUE NÃO SE APAGA

Para além de um dia de comemorações, o feriado de 20 de novembro carrega em si a história de diversas pessoas que lutaram e lutam pela liberdade e pela conquista e manutenção dos direitos de povos oriundos do continente africano. O Dia Nacional da Consciência Negra é, pois, uma forma de relembrar trajetórias e refletir sobre o papel fundamental dos povos negros na construção de nosso país. A partir dessa perspectiva, a SAE preparou o evento “3X Zumbi! (Re)Conexão África-Brasil no MN” que ocorreu durante os dias 20, 23 e 27 de novembro.

  • 20/11: Dança e Religiosidade

No primeiro dia do evento, a equipe da SAE contou com a presença do professor de dança de rua, passista e dançarino Igor Walker na área externa do Museu Nacional.  Seu estilo animado e desenvolto chamou a atenção dos visitantes do MN e da Quinta da Boa Vista que pararam para assistir e participar da oficina de Dança de Rua. Essa primeira atividade tinha como intuito mostrar uma das formas da cultura afro-brasileira re-existir entre nós por meio da dança. Antes do início da oficina, Igor pôde falar sobre a história do Hip Hop e contextualizar a difusão desse gênero no Brasil.

Paralelamente a isso, nos corredores do museu, os mediadores da SAE, em parceria com funcionários da instituição, amigos e parentes, desenvolveram três painéis com fotos de pessoas negras que ficaram à mostra do público. Com o objetivo de ampliar o olhar do visitante para além dos célebres personagens Zumbi e Dandara, a mostra fazia refletir sobre a negritude em pessoas comuns que ainda precisam resistir, lutar e re-existir à sua maneira até hoje.

À tarde, a segunda atividade do dia tomou conta do auditório Roquette-Pinto. Para discutir sobre diferentes relações entre a negritude e a religiosidade, chamamos à mesa Ronilso Pacheco — graduando de Teologia na PUC-RJ e membro da Igreja Batista Redenção —, Sebastião César Sant’Anna — mestre e doutorado em Memória Social na UNIRIO e membro da casa Ienzo Nganga Kingongo — e Yago Lembá — estudante de Ciências Sociais da PUC-RJ e Kambondo da Inzo ia Nambi gana Kingongo. Ronilso trouxe a teologia negra nas religiões de vertente cristã-protestante no Brasil, enquanto Sebastião e Yago discutiram sobre as religiões de atriz africana da qual fazem parte. Durante todo o debate, os diferentes tópicos perpassaram pela intolerância religiosa e por como o nosso atual modelo de sociedade permite a manutenção e a reformulação do racismo.

Embalados pelo som de cantores negros, o Baile Charme criou um clima de descontração entre funcionários e público e ainda permitiu que pudéssemos por em prática os passos aprendidos durante a oficina de Dança de Rua. Na entrada do museu, com muita música, passinhos sincronizados e sentimento de dever cumprido, encerramos o primeiro dia do evento.

  • 23/11: A representatividade negra nas telas

O segundo dia do 3X Zumbi foi marcado pela exibição de curtas que permitiam a discussão da falta de representação negra e racismo. A listagem programada contava com os curtas-metragens “Vista minha pele” de José Zito Araújo, “O Dia em que Dorival encarou a guarda” de Jorge Furtado e João Pedro Goulart, “Cores e Botas” de Juliana Vicente e “O Moleque” de Ari Candido Fernandes. A exibição foi seguida de uma roda de conversa sobre as temáticas apresentadas e os espaços estereotipados destinados à representação negra.

Mais uma vez encerramos o dia ao ar livre. Em frente ao ex-palácio imperial construído com o suor de negros escravizados, aconteceu um Sarau de Poesias. Com o microfone aberto, todos poderiam falar e expressar a poesia de suas negritudes. Pessoas que nunca haviam recitado seus escritos em público, agora estavam com o microfone entre as mãos. Pessoas que nunca nem sequer haviam escrito poesias, escreveram ali, rapidinho, só para não deixar de participar desse momento tão especial.

  • 27/11: Ecos de África a estética e na musicalidade brasileiras

Começamos nosso último dia de atividades com uma conversa mediada por Larissa Santos, estudante de Letras da UERJ, e Nayla Oiliveira, estudante de Ciências Sociais na UFRJ, sobre apropriação cultural, um assunto que gera polêmica dentro do meio acadêmico, mas que raramente atravessa os muros dos campos universitários.

Com uma roda formada por aproximadamente 30 pessoas, a discussão perpassou por outros tantos assuntos de cunho racial e, principalmente, permitiu que os participantes compartilhassem e justificassem seus pontos de vista por meio de suas próprias experiências. Não se estabeleceu uma hierarquia entre o conhecimento acadêmico e as vivências apresentadas, Larissa e Nayla conversaram abertamente sobre os temas para que os visitantes não saíssem dali com certezas irredutíveis, mas com aquela pulga atrás da orelha, pois o objetivo era fazer com que a própria população negra pudesse refletir sobre sua realidade. Pelo saldo ao final do evento, acho que conseguimos alcançar esse objetivo.

Após a conversa, juntaram-se a nós as estudantes secundaristas do colégio Pedro II, e também mediadoras da SAE, Bianca Torres e Letícia Herculano para coordenar a oficina de turbante. Para participar desse segundo momento, exigimos que o visitante tivesse passado por esse momento de reflexão inicial. Assim, negros e negras puderam reconhecer a ancestralidade por trás dos turbantes em suas cabeças: feliz o povo que sabe de onde vem.

Coincidentemente ao dia em que se completou 100 anos da gravação do primeiro samba de sucesso, Diego Uchoa, estudante de História da UFF e pesquisador na área de História Social do Samba na Primeira República, se juntou a nós para refletir como a África ainda se reflete em nossos costumes e, principalmente, na música brasileira. Composta por Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e pelo jornalista Mauro de Almeida, o samba “Pelo Telefone” tinha um estilo que se aproximava mais do maxixe do que do samba propriamente dito. A escolha dele pode ser vista como uma estratégia para se estabelecer um diálogo com os ouvintes desse estilo popular da época para, a partir disso, propagar o samba.

Essa capacidade de adaptação está muito presente na história do samba. Outro exemplo é a sua inserção na indústria fonográfica que só se tornou possível graças a uma espécie de “desafricanização”, um apagamento histórico de sua origem. Antes de tentar ser conhecido e reconhecido como um gênero musical, o samba estava intrinsecamente ligado aos cultos e ritos de religiões de matriz africana. No entanto, para entrar no mercado, ele começou a se afastar e até hoje tenta se manter afastado dessa sua religiosidade própria.

Para fechar esses três dias de discussões, reflexões e celebrações, realizamos uma roda de samba com o grupo Quinta Opção em frente ao Museu Nacional. No quintal do imperador, nos juntamos aos visitantes do MN e da Quinta da Boa Vista para sambar e comemorar o fim desse primeiro evento voltado diretamente à população negra. Enegrecemos um espaço que há muito era dominado por brancos.  

Agradecemos a presença de todos e esperamos que possam voltar a nos visitar em breve!

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