Museu de Curiosidades #10 A perigosa busca pela beleza

A perigosa busca pela beleza: o universo feminino no Acervo de Culturas do Mediterrâneo do Museu Nacional

Nas salas de Culturas do Mediterrâneo, que integram a exposição de longa duração do Museu Nacional, podemos encontrar objetos referentes ao cotidiano, à arte e a cultura clássica, isto é, greco-romana.

É interessante ressaltar que a exposição revela o fascínio da Imperatriz Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II, pela Arqueologia. Quando chegou ao Brasil, Teresa Cristina trouxe em sua bagagem muitas das peças que hoje encontramos expostas.

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Imagem 1: Retrato de D. Teresa Cristina, Paris, c.1888.

Alguns destes objetos foram coletados em escavações promovidas nas cidades de Herculano, Pompéia e Veio. Teresa Cristina era uma das Princesas do Reino de Duas Sícilias, onde começaram a ser realizadas escavações mais sistemáticas, a partir da segunda metade do século XVIII, em algumas cidades na região da Baía do Napóles (Pompéia, Herculano e Stabiae), que foram soterradas pelas lavas da erupção vulcânica do Monte Vesúvio no século I. Estas escavações na área duram até hoje. Teresa Cristina e o imperador Pedro II chegaram a acompanhar ao menos uma delas, como podemos ver na imagem abaixo.

Imagem2: D. Pedro II, Dona Teresa Cristina e comitiva visitando as ruínas de Pompéia, Itália, 1888.

Imagem 2: D. Pedro II, Dona Teresa Cristina e comitiva visitando as ruínas de Pompéia, Itália, 1888.

Além disso, Teresa Cristina subvencionou escavações em Veio, cidade ao norte da Itália e de origem etrusca, realizadas pelos arqueólogos italianos Canina e Lanciani. Ela também estabeleceu um intercâmbio de peças com seu irmão Ferdinando, governante do Reino das Duas Sicílias: enviava artefatos indígenas para Itália e recebia artefatos greco-romanos.

Nesta edição do Museu de Curiosidades, falaremos um pouco sobre a parte mais feminina das Salas de Culturas do Mediterrâneo. O tema da beleza da mulher aparece com grande destaque em uma de suas vitrines, que por sua vez representa o toucador feminino, apesar de algumas peças também  serem utilizadas pelos homens, como as fíbulas, espécies de broches, que seguravam o manto. Você já ouviu falar em toucador? Segundo o Dicionário Aurélio, uma das definições para toucador é: “ato de aprontar (lavando-se, penteando-se, maquilando-se, etc.) para aparecer em público”. E agora, já faz uma ideia sobre o que estamos falando?

Vitrine do toucador situada na sala de Pompéia e Herculano, do Museu Nacional.

Vitrine do toucador situada na sala de Pompéia e Herculano, do Museu Nacional.

Na referida vitrine, encontramos frascos de diferentes materiais (vidro em sua maioria, mas há uma caixinha de nácar, superfície perolada das conchas), elaborados para comportar maquiagem, óleos aromáticos e perfumes, bem como adornos,  dentre eles, anéis, pulseiras e as mencionadas fíbulas, e espelhos (a face redonda de metal, que bem polida, fornece uma face reflexiva, e dois cabos da face reflexiva de outro espelho).

O uso de jóias era bastante comum naquela época. Estas podiam ser feitos de ouro, prata, bronze ou ferro, muitas com incrustações de opalas, esmeraldas, safiras e pérolas. Os adornos não eram apenas confeccionados com metais preciosos, e para elaboração dos mesmos foram utilizados, também, osso, couro, pedra, cerâmica e conchas… Tanto os homens quanto as mulheres usavam anéis, braceletes, cordões e fíbulas. As mulheres também se enfeitavam com brincos, tornozeleiras, prendedores de cabelo e broches.

Objetos encontrados na vitrine revelam, também, a importância atribuída aos cosméticos pelas mulheres daquela cultura e apontam para os múltiplos cuidados adotados por algumas delas no que diz respeito ao aprimoramento de sua aparência física. Contudo, é preciso ressaltar que homens naquela época também usavam cosméticos.

Existem registros que apontam que a maquiagem era diluída em pequenos pratos ou pires. Os olhos eram escurecidos com cinza ou antimônio. Nesta época, chegou a se falar no “Pó da morte”, uma referência às maquiagens que continham grande quantidade de chumbo na sua composição e passaram a ser consideradas perigosas, já que teriam sido a causa de várias mortes. O rouge, utilizado nos lábios e bochechas, era um pouco mais seguro. Embora fosse feito de substâncias naturais, a sua cor avermelhada era extraída do cinabre (sulfeto de mercúrio), um mineral vermelho. No entanto, assim como o chumbo, também causava envenenamentos e, por ser utilizado nos lábios, era mais facilmente ingerido pelas mulheres.

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Imagem 3: Pequeno vaso trípode (por ter três pés) com três apliques de máscaras. Período Romano, c. séc. I. Pompéia.

Todos esses riscos, porém, não ficaram no passado. Até os dias atuais, na busca por um ideal de beleza, muitas mulheres fazem regularmente uso de substâncias nocivas à saúde. O curioso é que os riscos são muito parecidos com aqueles registrados em um passado bem distante e, muitas vezes, são causados pelas mesmas substâncias. Nesse sentido, citamos, mais uma vez, o chumbo, ainda bastante presente em cosméticos. O FDA (Food and Drug Administration), órgão governamental dos Estados Unidos da América, responsável pelo controle de alimentos, medicamentos, cosméticos, equipamentos médicos, dentre outros, encontrou, em 2009, chumbo em todos os batons que testou. O chumbo também está presente em rímel e outros produtos de maquiagem para os olhos e tinturas para os cabelos. Outras substâncias, como sais de alumínio, presentes em desodorantes, podem estar associadas ao câncer de mama e ao Mal de Alzheimer, enquanto o formol e o sudam III podem causar diversas doenças graves e levar à morte.

Para que pudessem admirar toda a sua beleza, como ainda não havia espelho de vidro, polia-se uma superfície de metal para se obter o reflexo dos rostos.

Imagem 4: Da esquerda para a direita, um disco refletor em metal e dois cabos de espelhos em bronze séc. VI a.C.

Imagem 4: Da esquerda para a direita, um disco refletor em metal e dois cabos de espelhos em bronze séc. VI a.C.

A visita às Salas de Culturas do Mediterrâneo em alguns momentos nos faz lembrar da deusa Afrodite (conhecida como Vênus pelos romanos), que era adorada pelas mulheres greco-romanas. Essa divindade mitológica era símbolo de beleza, amor e sexualidade. Uma das duas tradições míticas sobre o nascimento de Afrodite conta que a mesma era filha de Urano, cujos órgãos sexuais, cortados por Crono, caíram no mar e geraram a deusa.

Imagem 5: Nascimento de Vênus, pintura de Sandro Botticelli. A obra está exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença, na Itália.

Imagem 5: Nascimento de Vênus, pintura de Sandro Botticelli. A obra está exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença, na Itália.

Vocês sabiam que até hoje, em nossa vida cotidiana, Vênus representa o gênero feminino?

Imagem 6: Da esquerda para direita, símbolos  masculino e feminino.

Imagem 6: Da esquerda para direita, símbolos masculino e feminino.

O símbolo feminino está diretamente ligado ao espelho associado à beleza e o do masculino está ligado ao escudo e à lança do deus Marte ou ao arco e flecha de Apolo, associado à força necessária para atividade guerreira. Inclusive, os dois símbolos são utilizados pela Astronomia também, só que, nesse contexto, para fazer referência aos dois referidos planetas do Sistema Solar.

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Imagem 7: De cima para baixo, os planetas Vênus (2º planeta do Sistema Solar a partir do Sol) e Marte (4º planeta a partir do Sol).

A cultura greco-romana é muito fascinante e este pequeno texto vem destrinchar apenas uma pequena parte de suas riquezas.  Fica aqui o convite para que visitem a exposição, descubram mais e se encantem com a Exposição de Culturas do Mediterrâneo. Esperamos por vocês!

Texto escrito por: Jade de Almeida Moreira (Graduanda em Ciências Sociais – UFRJ/ Bolsista PIBEX – SAE-MN)

Revisão: Profa. Dra. Regina Bustamante – Professora Associada da UFRJ, vinculada ao Instituto de História. Docente dos Cursos de Bacharelado e Licenciatura em História e dos Cursos de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-graduação em História Comparada (PPGHC)

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